Discos e ônibus

Eu tinha levantado bem cedo, no horário certo para dizer a verdade (o que é mais cedo do que eu costumo acordar). Estava mais frio que o normal, e isso era bom, o café ainda mais saboroso e até um certo apetite para encarar um pão de sal esquentado no forninho elétrico. O carro estava na garagem, mas por impulso preferi dois ônibus para ir à faculdade. O motivo era simples, queria escutar um disco baixado na madrugada anterior. Foi quando percebi: o ônibus era um ambiente musicalmente rico na minha vida.

Pode soar deprimente pois não estamos falando de charmosos metrôs europeus ou bondes canadenses, mas de um 2151 que tem que encarar uma Avenida Amazonas às 7 da manhã, mas não era ruim de maneira nenhuma. É nessas horas que nossas cabeças se enchem de frases prontas sobre o quanto estaríamos fodidos sem aquelas músicas, aqueles livros e aqueles filmes. É óbvio, besta, clichê mas é bem verdade.

As músicas de “Shame, Shame” do Dr.Dog iam se resolvendo enquanto estudantes e trabalhadores se revezavam nos lugares do ônibus. Na terceira faixa, “Station”, olhava para a Avenida do Contorno caótica e seus pontos de ônibus cheios de gente agasalhada que esfregavam mão contra mão na tentativa de gerar algum conforto. Sorri. Logo depois percebi que ninguém mais estava sorrindo lá dentro. A garota de uns 16 anos do meu lado me olhou e fez algum tipo de careta, mal sabia que daqui a poucos anos ela iria sentir muita saudade de ter como única obrigação estudar para inúteis provas de química.

Na sétima faixa, “I’m Only Wear Blue”, já adentrado na temível Amazonas, em cima de um orgão triste que reverberava bem no fundo de meus ouvidos, eles cantam “I’m all bottled up / Floating in the deep blue / And you’re an open book / Anyone could read you“. É a sensação de estar escutando algo novo que é reconfortante, a nostalgia imediata de 45 segundos atrás quando a faixa tinha começado. Era tão forte que nos próximos segundos eu tirei o Ipod do bolso e recomecei. Já estava íntimo daquela canção, nossa amizade já estava traçada naquele minuto: saberia que poderia contar com aquela melodia pra sempre.

Relembrei clássicos dos transportes coletivos. Um término de namoro seguido de um 205 vazio para o Buritis com “Let’s Bottle Bohemia” do The Thrills. O 9410 do primeiro dia de faculdade com “Ode to Ochrasy” do Mando Diao. “London Calling” do Clash, ainda no discman, no 9106 para o colégio.

Fui tão longe que voltei aos meus 11 anos, quando gravei um fita com o “Warning” do Green Day a partir de um cd pirata comprado por 3 reais perto da casa da minha avó. Foi no walkman emprestado pela minha mãe que fiz uma viagem escolar de 18 horas para conhecer tartarugas no Espírito Santo. E percebi que tudo tinha começado ali. Os ônibus foram fundamentais.

Fonte: O Disco / Autor: Lucas Sallum

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